Os mistérios do Universo

September 26th, 2009

Serão sempre mistérios insondáveis, autênticos enigmas que envolvem a tragicomédia caseira de um gajo a tentar evitar sujar-se com pingos de qualquer acepipe fluído. Nunca entenderei isto. Acho, mesmo, que a compreensão de tais mistérios nunca estará ao alcance dos homens. Não estamos preparados para tanta sapiência. Mas, se conseguíssemos atingir esse conhecimento, acredito que alcançaríamos a chave de todo o saber e, muito provavelmente, a revelação de que o Universo não é o imenso paradoxo que afigura. Daí, manter-se tal segredo na posse exclusiva do demiurgo. É compreensível.

Juro que desta vez tive cuidado! Fui previdente. Retirei as amoras da tigela grande com todo o cuidado, usando uma colher de sopa, e transportei-as aos pares, em deslocação a baixa altitude, para uma taça de vidro colocada ali mesmo ao lado – reparem que escolhi o vidro para poder vigiar in extremis toda a operação. Desta vez, fiz tudo como deve ser. Recolocada a tigela no frigorífico, peguei na taça repleta daquelas pseudobagas, que mais não são do que dezenas de drupas agregadas, muni-me de um garfo de sobremesa – resistindo ao impulso de espetar algumas pelo caminho –, e voltei para defronte dos computadores. À medida que a conversa com o Armindo ia decorrendo no Messenger, lá me ia regalando com o intenso sabor dos minúsculos e negros frutos, indiscriminadamente trespassados pelo subtil garfinho. De repente, uma ideia assaltou-me, e, com ela um arrepio percorreu-me a retaguarda. Ah… ah… ergui os braços, evitando tocar no quer que fosse, levantei-me e encaminhei-me para a casa de banho. Sem parcimónias recorri ao gel mais dispendioso que por lá havia e lavei as mãos meticulosamente. Despi a camisa do pijama de Verão e regressei com um sorriso triunfal à cadeira de empreita que serve o serviço computacional. Agora queria ver como é que o raio das amoras me iam tingir a roupa. Hehehehe… Tinha-as lixado. Confiante, retomei o ritmo das opíparas garfadas.

Nem demorou dois minutos, ou umas cinco linhas do diálogo acerca das críticas à minha recente publicação – sim, vai ser lançada na próxima semana mas já conta com recensões de insignes literatos. Mas quais dois minutos? aquilo foi só o tempo de reposicionar no cérebro as coordenadas dos caracteres do teclado e, quando confirmava que o “f” se encontra entre o “d” e o “g”, deparei com dois malditos pingos na barra de espaços. Arregalei os olhos e suspendi toda a actividade digital – e desconfio que, cerebral também. Horror dos horrores, ao varrer, em rápida panorâmica mental, o tabuleiro alfabetiforme, descobri mais vestígios da penetrante tonalidade arroxeada. Desta vez eram traços imprecisos, como micro rastos, plasmados em mais umas tantas teclas. Olhei para os dedos e fiquei completamente estupefacto. Estavam sujos! Mas como, meu Deus? Como, se nem toquei no raio das amoras? Absolutamente atónito, demorei no regresso ao mundo do teclado e dos dedos maculados e da conversa a que tardava responder. Isto não é possível! Isto não está a acontecer.

Vocês compreendem o meu alvoroço, não?! É que nódoas de amoras, romãs, nêsperas e coisas que tais dão direito a imediata discussão com 50% da camada associativa, qual estardalhaço em assembleia de sócios do Benfica. Mas eu continuava a não perceber como acontecera aquilo. Um relâmpago de lucidez, a experiência da meia-idade, o bom senso, ou a prudência, ou tudo isso nas doses certas, ditaram uma retirada táctica para a cozinha. Não sem antes explicar ao interlocutor internauta o desastre ocorrido – com consequente agravamento dos resultados, pois ainda espalhei a moléstia por outros caracteres do tabuleiro plástico.

Claro está que conclui o consumo das amoras dobrado sobre o balde do lixo. Com os poderosos detergentes da cozinha procedi à remoção das marcas da maldita tintagem e desisti de repetir a dose – contrariando os planos iniciais -, optando antes pelas uvas, fruta mais pacífica. Ah… mas muito mais pacífica, mesmo, meus senhores.

Retornado aos computadores (no plural, pois, de facto uso dois desktops, um para a net e o outro para os trabalhos fotográficos e textos mais sérios). O segundo choque gastronómico da noite sobreveio quando deparei com um estranho olho que me observava a partir da parte central dos boxers apijamados. Ali estava, um ser ciclópico de olho escuro mirando-me a partir de uma posição geográfica notoriamente particular e íntima, como uma malha de circunferência perfeita, uma mancha, um borrão, uma mácula… UMA NÓDOA DE AMORA!!!

Não sei o que é que vocês acham, mas eu estou convencido que ontem à noite aconteceu qualquer coisa estranha no Universo.

metahistória

September 26th, 2009

A escrita que me interessa produzir não é um exercício do absurdo, ou réplica literária da dramaturgia de vanguarda, embora receba daqui alguma influencia – nomeadamente na apresentação dos distintos momentos (tradicionalmente capítulos), como quadros cénicos salpicados de atmosfera teatral. O que escrevo tenta inserir-se na linha da nova estirpe do romance histórico, moldada no pós-modernismo, que trata a história com uma independência absoluta. Nestas ficções pós-modernas, o “tratamento” dado à história recorre a paradoxos, exageros, a sucessões de elementos díspares aparentemente desordenados, atingindo por vezes a desconstrução total do facto histórico. Livre da sua natureza temporal linear, dessa tirania do discurso do contínuo, a história é apresentada como uma sequência de intercalações, uma sucessão de sobressaltos cronológicos.

Será coisa perturbadora mudar assim a história, mas esta peculiar opção literária vive do diálogo individual do autor com a história, procurando, entre outros aspectos, que as suas construções especulativas contestem a resignação perante a falsa inevitabilidade do facto pretérito, resultando um: - … se não foi assim, podia ter sido!

O alvo principal deste discurso irónico é o repositório dos factos estabelecidos bem como as interpretações desses factos. O devir histórico, na sua caminhada, apresenta-se como um desgaste de vidas, de opções e de oportunidades, uma vez que a escolha de uma única possibilidade implicou a eliminação das alternativas. Eis o campo de batalha desta ficção pós-moderna, a metaficção historiográfica, que elege a impossibilidade como propósito: as possibilidades perdidas, descartadas, do passado, são apresentadas como tendo realmente acontecido.

Tivesse eu a preocupação de escrever para os outros e este seria o móbil da minha acção, um desafio lançado ao leitor: Entre a “certeza” da história real que sobejamente conhece e a história possível que a ficção lhe apresenta forma-se um momentum de reconstrução do conhecimento, que compete ao leitor moldar até onde o seu interesse e as suas capacidades o permitam. Mas não é esse, exactamente, o meu motivo. Iniciado no conto Claustro Fobias, continuo o exercício da escrita, por um lado naquilo que respeita à forma, aperfeiçoando a sintaxe, procurando o equilíbrio entre a limpidez discursiva e os artifícios das figuras de estilo ou de um vocábulo mais pomposo, agora com o desafio acrescido que representa a construção de um texto que se inscreva na corrente da metaficção historiográfica; e por outro lado na utilização do léxico da primeira metade do séc. XV, especialmente a terminologia náutica desse período.

Esse é o exercício que me proponho realizar, escolhendo como ponto de partida cronológico, o ano de 1434, e o espaço físico, a cidade de Lagos. Mas são apenas pontos de partida, não sabendo ainda por onde, e quando, na linha do tempo, viajarão os personagens do(s) enredo(s). O mar e a navegação afirmam-se como moldura e fundo da narrativa. Os personagens, como Gil Eanes e outros, hão-de agir e interagir numa conformidade ora verosímil, ora desconcertante, ao sabor dos ventos e marés da imaginação, do desassossego e do inconformismo do autor.

A Barca Bela (ou de como a bela foi na barca)

March 24th, 2009

Martim saltou para a barca e um dos homens firmou as mãos na laje do cais, empurrando-a, afastando a embarcação. A correnteza da maré era tão fraca que nem ajudou a vencer a escassa milha1 que separa o velho cais da foz da ribeira, encastrada nos areais, para lá da praia de S. Roque2. Trabalharam os remos.
Iam para Alvor por mor de reparar o mastro quebrado da barca. Não que não houvesse mãos capazes de o fazer no burgo mas por respeito pelo contrato de assistência da marca. Assim ordenara Gil Eanes interpretando a proverbial avareza do seu amo, o senhor Infante D. Henrique. Para quê pagar tal serviço a artesãos do lugar se, a parca distância, tinham um serviço gratuito?! Assim ajustava o auto de garantia firmado na compra da barca, num stand da feira náutica de Alvor, no dia dezoito de Fevereiro do ano da graça de MCDXXXI (mil quatrocentos e trinta e um - para a malta recém formada pelo sistema de ensino português não entender como um cartão de memória digital).

Não esperava Martim encontrar um ínvido funcionário no estaleiro de Alvor, homem de meia-idade, calvo, de estranho tino e paciência mínima. Que não, que tal reparação nunca poderia ser executada com tal rapidez, argumentava o tonsurado calafate. Que sim, respondia o imberbe marinheiro do escudeiro Eanes, que tal houvera sido combinado uma semana antes entre o seu amo e o mestre do estaleiro. A barca teria de ficar operacional para a empresa que se avizinhava. Era urgente, exclamava o jovem lacobrigense de feição pueril - por vezes enganadora do seu género - ao obstinado alvoreiro.

Descansando da pesada remada que vencera a baía e a corrente do rio, acolhidos na sombra dos decaídos barracos de apetrechos do estaleiro, os oito remadores aguardavam o desenrolar da discussão. Para lá da faixa de sombra projectada no terreiro lamacento, sob a inclemente baforada algarvia do astro rei, fulge o rosto irado do mancebo e rebrilha a calva do recepcionista da instalação náutica. Por esta altura pensarão os remadores que a demanda vai descambar em pancadaria, enquanto deslizam olhares duvidosos na apreciação dos franzinos bicípites do arrais da barca, revelando falta de robustez para brandir convenientemente um remo. A barca assiste, serenamente, ao arrazoado diálogo que o seu mastro partido originou, baloiçando-se, alheada, nas águas cristalinas provenientes da serra de Monchique que ali se caldeiam com as do oceano.

Não se chega a vias de facto, nem saberemos se tal iria acontecer. A intervenção do mestre carpinteiro, entretanto chegado ao bulício, determina que os serventes alem o batel e que se apressem nas reparações.

A companha maruja regressa à cidade a pé, depois de franqueada à margem poente da foz alvorina, desviando-se episodicamente do extenso areal da meia praia para breves incursões aos laranjais e vinhas que bordejam a doirada moldura da baía. O jovem ocupa a frente do pelotão, num porte altivo, sacudido apenas quando enterra um dos pés nas areias quentes que a maré alta deixou por caminho, alheio ao chamamento das guloseimas que amiúde experimentou, então à sorrelfa de trabalhos e empenhamentos ordenados pelo seu amo. Segue orgulhoso, brilhando-lhe os olhos esverdeados onde se reflecte, esbatida, a alvura do casario da cidade que se aproxima.

(…)

O senhor Infante está na cidade! E logo tremeram os serventes da sua casa, os gentis-homens e outros destacados cidadãos da urbe, tremendo crianças e mulheres, das virtuosas às toleradas, senhoras, trapeiras, donzelas de coifa ou descabeladas padeiras, tremeram as alimárias citadinas sob a cangalha das bilhas da água que distribuem, agitaram-se as grasnentas gaivotas e, até, os barcos em manobra ou ancorados estremeceram: desamarra-me! Parecia gritar o barinel. -Que quero partir rio baixo, à deriva. Parecia assim, mas não seria apenas singelo baloiçar das águas em correnteza ditada pela estrela lunar?

Imerecido e injusto juízo é o destas fracas gentes acerca deste dignatário da ínclita geração.

(…)

1 – Inicialmente, igual a mil passos, a milha acabou sendo modificada para cerca de três vezes essa distância. A distância a que aludimos não seria superior a 600m.

2 – Crê-se que a barra da ribeira de Bensafrim terá, ao longo da Idade Média e Moderna, alternado a sua localização entre a indicada no texto e a actual, devido a processos de assoreamento e desassoreamento das referidas barras.

prosa poética em carta ao jeito de 600

February 23rd, 2009

Mui estimada e formosa donzela, acontecendo continuar a ser alvo de episódicas inquietudes sentimentais provocadas pela preciosa existência da vossa pessoa, e não obtendo qualquer resposta às simples interpelações que vos endereço, resta-me ir suavizando este miserável existir entrecortando momentos de alegre lucidez com irrequietos acometidos de coração, quando não melancólicos e absortos estados de espírito, que muito me mofinam a alma. Confinado assim, por vós, cruel princesa, às coisas do imaginário, quiçá por receio (infundado, vos garanto) de que desatine o coração em bater mais do que deverá, qual corcel em desabrido galope por montes e vales, sem freio nem mão que o tolha, eis-me imaginando interrogativas questões que vos colocaria, se vós fosseis pessoa de dar resposta. Triste sorte a minha, pois que o não sois. Assim me fico na hipotética inquirição.
Ride-vos, entretanto. Que mais não vos posso dar (porque vós não o aceitais, que assim se entenda). Mas ride-vos com gosto, com muita alegria. Por mim, bem deveria rir todo o mundo para vós, juntando em vosso coração a maior felicidade que o Universo permitisse.
Avanço.
E começo, repetindo-me (o que prova que infanções ou homens bons, quando apaixonados, andam igualmente parvos): - Existe algum donzel ou cavaleiro pelo qual vosso coração suspira, sim, ou não? Se existe tal homem, tão cheio de sorte, dizei-me ó mais linda princesa: - Diz-vos ele em cada dia que o Sol brilha, todos os dias da vida, que sois vós a mais linda de todas? Não me respondas que “tal coisa não é preciso”, pois não é uma questão de necessidade, é uma questão de merecimento. Assim o mereceis vós, gentil e doce dama.
E agora intercedo por mim: Se ele não diz tal, posso dizer-vos eu? Todos os dias? Se SIM, mandarei um pombo-correio com tal mensagem. Saiba ele o caminho e evitar a soltura das gaivotas e sereis recebedora dessas justas e puras homenagens de preito.
Sabendo-me homem nem sempre de perfeito juízo e por bastas vezes até um bocado irracional, mas cumprindo também alimentar esse lado menor da personalidade, por isso pergunto: - De que Signo sois? Balança, Aquário ou Capricórnio, ou um dos outros será? Bem gostaria de consultar os astros. Talvez as que brilham na abóbada celeste me respondam, cousa que vós tanto brilhando cá em baixo o não fazeis. Que estrela caprichosa sois, menina.
Uma última questão vos coloco, à qual não respondereis, pois claro. Mas ainda assim aqui deixo: - Querendo convosco conviver um pouco, para o que vos poderei convidar? Para um bailar, um passeio, ou um simples jantar? Dizei-me, amiga (não me dizendo nada, claro está).
E termino.
Bem mandada e entregue deveria ser esta missiva, escrita a pena sobre pergaminho, e devidamente lacrada. Mas assim não será, por receio de espiões dessa gente que não acredita em amores e paixões.
Junto tanta coragem como a que a Gil Eanes usou para passar além do Bojador e… atrevo-me a oferecer-vos um beijo. Aceitai, por amor, amizade, caridade ou … economia. Sim, porque sendo oferta vale a pena aproveitar, neste mundo louco em que até para mandar um beijo para o lixo, também é preciso pagar.
Assim, beijo a vossa linda mão.
PS: E não aguardo resposta. Seria tortura, como da Inquisição.

;D

Desencontros

February 23rd, 2009

Desencontros

No princípio era o verbo…
…na forma de uma epístola poética.
Poesia que dava conta do meu estado de espírito e de um intenso sentir. Um sentir incómodo, pois provinha de um sentimento inconsequente e irrealizável.

Revelei-o. E esse foi o meu primeiro erro.
Parti do princípio que ela reagiria a essa revelação como uma mulher da minha idade. Que idiotice a minha. Afinal era apenas uma jovem com pouco mais de metade da minha idade, como poderia alguma vez entender a singularidade do que lhe pedia?!

Coloquei-a num pedestal, chamei-lhe deusa e dediquei-lhe dezenas de poemas.
Compreensivelmente encantada com a produção poética e com o facto de ter sido eleita musa da arte de Orfeu foi aceitando, sem manifestação de rejeição, essa minha atenção. Até porque lhe reiterava constantemente o meu propósito objectivo, e único, o de construir uma amizade.

A adopção desse objectivo não era mais do que uma estratégia que visava a sublimação de um sentir que eu, lucidamente, encarava como total e completamente irrealizável. Mas passível de se sublimar na amizade. Essa amizade se encarregaria de, paulatinamente, impor ao domínio sentimental os libelos da razão. E de uma forma menos penosa do que qualquer outra opção terapêutica para o meu acidente emocional. Nisto acreditava eu.

Mas, de repente, sobreveio o afastamento. Ela afastou-me. Fê-lo através do silêncio. E essa data, a do início do afastamento, coincidindo com acções aleivosas de terceira pessoa sobre mim, aparentemente estranha a nós, conduziu-me, algum tempo depois, a considerar existir alguma relação entre ela e a pessoa que cometeu esses hediondos actos (houve outras coincidências e factos que concorreram também para a fundamentação desta suspeita). E daí ter ela optado pelo afastamento e pelo silêncio total?!

Questionei-a. E insisti, mas nunca obtive qualquer resposta. Atarantado pelo desconhecimento da razão da sua atitude, imaginei os mais improváveis cenários e testei as mais ridículas hipóteses, que revelaram apenas isso: que se tratavam de suposições erróneas.
A insistência cresceu, avivada pelas conjecturas que a ausência de diálogo permitiu, e promoveu, e rapidamente se transformou em perturbante incómodo para ela.

Mas, porque insistia eu?
Porque estava convicto de que ela me afastara em resultado de se sentir incomodada pela possibilidade de se ver associada à acção dessa terceira pessoa, pois tratava-se de uma atitude infame. Assim sugeriam os indícios. Porém, nunca acreditei, nem acredito, que tal acção tivesse contado quer com a participação activa dela, quer com o seu consentimento ou até mesmo com o seu conhecimento prévio.

E assim, achava eu injusto que, devido a uma acção perpetrada por terceiro, se comprometesse a relação de amizade que eu pretendia e desejava e em que estava decididamente empenhado com toda a minha sinceridade.

Depois, pratiquei e acumulei erros, primeiro com a continuada insistência em procurá-la para o diálogo que tanto desejava, e depois com provocaçõezinhas baseadas em exercícios de lógica, especulações e deduções elementares, tudo isto para a suscitar ao diálogo.

Claro que nada disto resultou. Recolhida na sua concha, comprometida com supostos e, porventura, rocambolescos protagonismos (saídos da minha dedução ou, mais provavelmente, da minha imaginação), ou desconfiando da possibilidade de ainda me animarem forças geradas no fogo sentimental, e hesitante na atitude a tomar em função disso, o certo é que ela esquivou-se peremptoriamente ao contacto comigo.

Por fim, a razão da minha insistência em falar com ela já não residia na necessidade de esclarecer a razão do afastamento, mas sim no imenso incómodo que me atormentava por não saber o que pensaria ela de mim, em consequência do desenrolar dos acontecimentos. Convicto de que ela tinha construído uma ideia errada, e injusta, a meu respeito, tal imagem tornava-se insuportavelmente torturante.

Numa primeira fase, quanto mais ela se esquivava mais eu suspeitava de que o fazia para ocultar algo relacionado com as conjecturas que lhe expusera. Agora, quanto mais eu insistia, mais a incomodava e mais ela acreditaria numa eventual paranóia, da minha parte. E quanto mais isto acontecia, mais incomodado eu ficava, e mais revoltado com o facto de ela não aceitar que uma simples conversa resolveria tudo. Conversa a dois, ou conversa com algum/a amigo/a presente. Tanto se me dava.

Daí, até considerar pérfida a atitude dela, foi um passo. Agora juntava à minha mágoa, a perfídia dela. E no entanto, não acreditava que ela fosse uma pessoa assim. Sempre acreditei que para além de me caber a culpa da falha desta relação idioticamente desencontrada, também somava profundos erros de apreciação/qualificação das acções dela. Mas ter-lhe-ia sido tão simples corrigir tudo isto com um diálogo, apenas.

Após ter-se zangado veementemente comigo, num discurso telefónico em que deixou bem claro o corte total desse monólogo que eu ia mantendo com ela, sobretudo pelos mails, e mais esporadicamente pelo telefone, manifestei num e-mail final o meu desapontamento com a atitude dela. Porém, agradecendo-lhe o facto de ter despertado em mim inopinadas sensibilidades. Primeiro a poesia, e agora a motivação para a construção de um conto ou uma história, mas que até poderá ser uma novela (mais dificilmente um romance). [Para escrever uma coisa assim é preciso ter algo para contar e, sobretudo, é preciso ter vivido e sentido algo interessante que possa ser reduzido a escrito. Finalmente, tenho algo com substância para enformar uma estrutura ficcional mais ampla, que obrigatoriamente extravasará o domínio das experiências pessoais e da realidade.]

Presumo que cometi novo erro, pois esta revelação terá sido entendida como um acto revanchista. É o quanto posso especular a partir da convicção de que ela passou a comentar estes factos com os amigos. Procura apoio? Procura atingir-me? Por enquanto não me sinto atingido, nem incomodado. E espero não vir a sentir-me assim.

“O paradoxo não é meu. Sou eu”
(F. Pessoa)

há duas pessoas em mim

February 23rd, 2009

Há duas pessoas em mim.
De um lado há um sacana,
sentado à sombra de uma árvore,
que aceita a necessidade de ser egoísta
para poder escrever sem transigir
nas convenções, nos preconceitos
e nas hipocrisias do quotidiano.
Do outro lado há um homem
que se comove com o pardal juvenil
que cai da árvore.
Entre os dois, apenas a verdade
que interessa:
a árvore.

De falha em falha, até à falha final

February 23rd, 2009

É caricato como algumas mentes pouco dadas à reflexão se aventuram a esgrimir convicções assentes numa experiência de vida pressupondo que essa experiência, apenas porque foi vivida, representa a verdade. De uma penada é varrida a razão kantiana que tantas objecções levanta à validade absoluta do conhecimento empírico.

Nivelar por cima, sem cultivar uma atitude elitista (pois, se o elitismo se instalar será por acção natural), será, sempre, exercício mal interpretado, sobretudo por aqueles que defendem que a validade do conhecimento reside nas práticas acumuladas de uma vida.

Rejeito as atitudes que definem a cultura por classes, posturas provenientes de uns que se julgam mais cultos, quer os que as manifestam petulantemente de uma posição aparentemente superior, quer os que fazem da boçalidade um arauto apologético da pureza de uma certa “cultura popular”.

Mas que é hilariante, lá isso, é. Cinismo de quem ri, ou falha de quem está a aprender?

A minha promessa é esta: Falharei mais vezes, até ao fim. E ninguém me impedirá de o fazer.

«Tenta outra vez. Falha outra vez. Falha melhor.»
Samuel Beckett

cínico: pessoa sem pudor, indiferente ao sofrimento (ignorância) alheio.

Qual Lego

February 23rd, 2009

Quando era miúdo o meu pai ofereceu-me um jogo daqueles que tentavam imitar essa invenção superior proveniente de terra viking, o LEGO, este talvez de origem espanhola – que nesses tempos ainda as lojas chineses não salpilhavam* a paisagem urbana e a nossa imaginação –, era uma caixa cheia de peças plásticas com buracos: chassis, tirantes, rodas dentadas, tubos, parafusos e porcas, e as respectivas chaves de bocas para fixar os componentes dos vários engenhos que o conjunto permitia construir. Uma maravilha para os dedos e para o cérebro de um puto de sete anos, digo-vos. Até hoje, foi, de todas as coisas que me ofereceram, a mais parecida com as palavras – embora muito aquém das possibilidades construtivas destas. Desfeita a caixa, esmagada pelo peso dos anos, gastas e dispersas as peças e as ferramentas que as juntavam, desaparecido o jogo nos confins da memória, não desapareceu, porém, esse prazer, essa vontade de juntar peças, inventar puzzles, montar edifícios, máquinas eficazes ou complexidades inoperantes, agora com as palavras. Mais além do que as construções estáticas que evocavam, e por vezes uma elementar acção dinâmica – lembro-me que podia construir uma grua porque existiam também roldanas, um fio e um gancho –, é com as palavras que consigo construir coisas mais robustas ou delicadas, fixas ou móveis, capazes de dar a volta ao Universo, coisas que permitem edificar cidades, criar mundos, viajar para todo o lado dentro e fora de mim. Continuo, pois, a brincar com aquele jogo, acrescentado de muitas e variadas formas, construindo, reconstruindo, empoleirando partes, equilibrando peças. É o que me permitem as palavras. E cada vez mais, à medida que vou aperfeiçoando as ferramentas, essas chaves de bocas que as colocam, acertam e apertam nos devidos lugares. Brincadeiras de miúdo, simplesmente. Quanto à loucura, vai saudável. Obrigado, mestre!

;)

Arre… inventei um vocábulo, ou uma palavra ó u camandro!!!

*SALPILHAVAM: dispersão de lojas chinesas pela paisagem do império imaginário conhecido por Portugal, com o intuito de extorsão subtil e persistente das moedas que sobram do exercício da nacional chulice dos bancos e do estado sobre os cidadãos do referido império imaginário.

poema a umas mãos

February 23rd, 2009

Foram as mãos. Aquelas mãos brancas, pequenas e delicadas, que numa manhã de Inverno me seduziram e encaminharam o olhar para aquele rosto sereno, angular, com uma boca distinta e uns olhos escuros enormes. Fiquei impressionado.
Meses depois, exposta, ali, à minha frente, com risos largos que revelam a beleza de uma boca povoada de perfeitos e alvos dentes, e os mesmos lindos e brilhantes olhos que lhe iluminam o rosto, por vezes misterioso, traindo naquele momento a fugaz emoção da experiência nova, a curiosidade e, até, alguma insegurança, frente à luneta mágica que a explora, eis que de repente me atinge em cheio.
Acertou mesmo no meio de mim. Com toda a brutalidade. Foi faca, foi bala, foi bomba, foi mais, foi um autêntico aríete que me implodiu o ser.
E foi ela, também, talvez com o olhar hipnótico, que me reconstruiu outro. Um novo ser, com um novo olhar, escravo de uma nova e profunda paixão, mais profunda do que qualquer alicerce de qualquer muralha de qualquer castelo. Uma avassaladora paixão, como jamais sentira.
… E nos dias seguintes milhões foram as facas que se enterraram no meu peito. Sucumbi, ajoelhado, vergado sobre a força que me constringe este peito, possuído por esta angústia medonha que me cerca, implacável, como uma escuridão insidiosa.
Nos dias seguintes andei errante, caminhando pelas ruas da cidade, às voltas, procurando, por não saber dela. De onde vinha, onde estava. E, gradualmente, uma monstruosa inquietude foi-me invadindo até à mais pequena molécula de mim, e a todas as partes de mim. E respirar era difícil. E parar era impossível. E queria chorar. Queria, tanto, conseguir chorar. Chorar com toda a força. Mas as lágrimas não fluíram. Não houve gotas para refrescar esta caminhada ao calvário.Perdi-me do que era antes e, assim, perdido, ando. Não me reencontrei ainda. Nem sei o que sou agora.… Neste estado de profunda catarse agarrei um lampejo de impulso racional e estabeleci o plano, diabólico, de assassinar esta paixão que me consome. Exorcizá-la. Não me escondendo, nem a evitando a ela, a das mãos lindas. Antes, procurando a sua companhia para primeiro, acalmar o turbilhão em que me transformara e para depois poder reconstruir uma realidade. A realidade da impossibilidade. Assim, afogo ilusões que acredito não poder transformar em vida nova. Numa nova vida. E recordo o poema que pede ao tempo para voltar atrás. Vã ilusão, confirmo. E sofro…tanto.…
E hoje vejo-a. Sem a procurar, é ela que vem, e sorrio-lhe, e sorri-me. Falamos. Mas não destas coisas, que ignora completamente. Toca-me suavemente no braço, como quem acaricia uma pena, com uma daquelas mãos que adoro, pequena, alva e delicada, para se aproximar e espreitar um postal que admiro. E o quinto dia do meu novo ser consome-se nesta efémera tranquilidade. Mas a dor continua, aqui, mesmo no cimo do peito, profunda, dominadora, esmagadora.
E as lágrimas continuam a não correr. E precisava tanto delas, para drenar este sofrimento que me consome, tanto como os áridos campos de hoje clamam por gotas providenciais que os venham aspergir e salvar da impiedosa seca. Assim mesmo…. Agora sossego um pouco. Tenho a promessa de tocar as mãos. Aquelas mãos brancas, pequenas e delicadas. De as pintar, gravar na tela onde poderei admirá-las, para sempre.E depois, … não sei. Talvez me reencontre, ou talvez fique perdido para sempre nesse limbo, para onde Afrodite me expulsou.

2005.06.06

a evulssão do uomãi cem cabessa

February 23rd, 2009

foto-fc.jpg

A fotografia, captada em contexto que nada deve ao conteúdo que se apresenta aqui, é usada para representar a evolução rumo ao homem biónico que, para além de “optimizado” nas suas capacidades físicas – não fuma, não ingere álcool e copula agendado – complementa o seu porte físico com apêndices hi-tech, dilatando o seu porte atlético, levando-o a acreditar-se capaz de desafiar Hermes.

Mas notem que é um homem sem cabeça (animal racional superior - entendo que o superlativo é apenas por não existir termo comparativo à altura), pois para coordenar simplesmente o amontoado de músculos, basta um pequeno chip no alto do pescoço. Recusa-se este homem a olhar além do seu corpo, ou de um outro temporariamente adentro do seu espaço vital por razões de prazer ou procriação. E é nessa recusa de sair de si, de pensar e agir, que o homem cede à NÃO CULTURA.

Vem isto a propósito dos inúmeros livros que se publicam neste país, especialmente nesta época, supostamente para que os veraneantes ocupem o intelecto com ARTE (coisas que mudam a mente). Ora, escrever/publicar um livro é um acto de arte, e é um grito de guerra. Porém, tal coisa é impossível num país sem guerreiros. Os que publicam profusamente são, na maioria, gente comatosa, entrincheirada, aprisionada, ou engajada na conservação do statu quo. Um livro, qualquer livro a sério, de fotografia ou um romance, exige inquietude, angústia, raiva, desespero, revolta, ressentimento, temperamento trágico e conhecimento exterior a si. Exige o concurso de todas estas propriedades ou apenas de algumas, mas não seguramente as “qualidades” que escoam das páginas da maioria do que é publicado entre nós. Pura lerdice imprópria para exercitar a inteligência.

A única coisa que por cá se publica é folhetins de passeios de endinheirados meninos de outrora, hoje figuras de ecrãs. Isso, e biografias encomendadas, de putas demandando ajustes de contas. Comparativamente, este segundo tema merece mais crédito, pelos atributos éticos e morais das biografadas, mas não pela qualidade literária dos volumes produzidos.

Cuidem-se, pois, das obscenidades que as editoras apresentam nesta altura e rebusquem nas literaturas de épocas em que existiam escritores – gente que usava a cabeça e não apêndices de carbono –, as obras para vosso deleite intelectual. Fica uma sugestão: “A Derrocada da Baliverna”, de Dino Buzzatti.

A evitar: Reedições de Lobsang Rampa (que estas coisas da terceira visão são viciosas), ou os comoventes moralismos de Paulus Lepus.

Boas Férias.

F.Castelo